Abril de 1949: <br>entre a guerra e a paz
No já longínquo mês de Abril de 1949, dois acontecimentos de sentido diametralmente oposto tiveram um profundo impacto no seu tempo e repercussões que se fizeram sentir pelos anos fora. Até hoje.
Dia 4. Em Washington, representantes de 12 governos (EUA, Grã-Bretanha, França, Itália, Bélgica, Holanda, Canadá, Dinamarca, Islândia, Luxemburgo, Noruega e Portugal) constituem a Organização do Tratado do Atlântico Norte/NATO (na sigla em inglês). Três anos mais tarde, juntam-se-lhes a Grécia e a Turquia e, pouco depois, a República Federal da Alemanha. Se os apregoados objectivos desta aliança militar – a defesa do «Mundo livre» – ficam desde logo desmascarados com a participação do Portugal fascista na sua fundação, o primeiro secretário-geral da NATO, o britânico Hastings Ismay, é mais claro nos reais propósitos da organização: garantir a presença militar norte-americana na Europa e impedir o aumento da influência dos comunistas em cada um dos países.
A criação da NATO representa, assim, um significativo salto no processo de crescente domínio norte-americano sobre a Europa ocidental, que se tinha iniciado nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial: primeiro através do chamado «Plano Marshall», que garantiu a manutenção de altas taxas de lucro para os grandes grupos económicos dos EUA e o domínio sobre a economia dos países europeus, destruídos pelo conflito; e depois por via do reforço da presença militar no continente. Ou seja, para escaparem a uma tão difundida quanto inexistente «ameaça soviética», os países da Europa ocidental deveriam submeter-se a uma – esta sim, real e efectiva – submissão aos Estados Unidos da América.
Em Portugal, a adesão à NATO – ou, melhor dizendo, a arrumação de forças saída da guerra, na qual se insere a criação da aliança atlântica – teve, para a ditadura e para a oposição, consequências de sentido oposto. Para a ditadura, ela significou um importantíssimo e oportuno apoio externo que lhe faltava desde que sucumbiram os seus aliados ideológicos: a Itália de Mussolini e a Alemanha de Hitler. Para a oposição, este alinhamento internacional do fascismo significou a divisão e, consequentemente, o soçobrar dos amplos movimentos unitários construídos desde o início da década com o labor dos comunistas, o MUNAF e o MUD.
Se os comunistas viam a atrelagem do salazarismo ao bloco anglo-americano como uma nova forma de submissão nacional e um poderoso sustentáculo da ditadura, vários foram os sectores que esperavam das potências capitalistas ocidentais algum tipo de apoio para pôr fim ao regime. O apoio chegou, sim, mas para reforçar o salazarismo.
Dias 20 a 26. Milhares de pessoas reúnem-se, em Paris e em Praga, no primeiro Congresso Mundial dos Partidários da Paz – que marca o arranque formal do movimento mundial da Paz, progressista e anti-imperialista, que a partir de finais de 1950 (no II Congresso) se congregaria em redor do Conselho Mundial da Paz. Previsto e convocado inicialmente apenas para Paris, o congresso teve que se desdobrar devido à recusa das autoridades francesas em conceder vistos de entrada aos participantes oriundos dos países do Leste da Europa.
Em cada uma das capitais estão presentes resistentes antifascistas, intelectuais, artistas, cientistas, sindicalistas e religiosos. Em Paris, sobressaem, entre outros, o Prémio Nobel francês Frédéric Joliot-Curie (que seria o primeiro presidente do Conselho Mundial da Paz), o poeta chileno Pablo Neruda e o pintor espanhol Pablo Picasso, autor do cartaz do congresso. Há comunistas, muitos, mas também socialistas, progressistas e católicos.
Nos meses que se seguem ao congresso são formados diversos comités nacionais e a luta pela paz assume um carácter global: o Apelo de Estocolmo, contra as armas nucleares, é lançado em Março de 1950 e recolhe centenas de milhões de assinaturas. No final desse ano, no segundo Congresso Mundial da Paz, realizado em Varsóvia, é constituído formalmente o Conselho Mundial da Paz, com 221 elementos. Entre eles está o português Manuel Valadares (juntam-se-lhe, em breve, Maria Lamas e Ruy Luís Gomes).
Tal como sucedera um ano e meio antes, o segundo congresso esteve marcado para Sheffield, na Grã-Bretanha, mas as autoridades negaram os vistos a muitos participantes. O próprio Joliot-Curie, impedido de entrar no país, é recebido pelos estivadores de Dunquerque como um herói; Picasso, uma das poucas figuras a quem foi concedido o visto, recusa-se então a pisar solo britânico em solidariedade com os seus companheiros.
Enfrentando múltiplas tentativas de isolamento e silenciamento, o movimento mundial da paz alcançou grande expressão logo nos primeiros anos de existência. A coerência da sua acção, o carácter unitário das suas campanhas e o prestígio de muitas das personalidades que o constituíam, permitiram-lhe chegar longe, o que, certamente, terá contribuído para travar os ímpetos mais agressivos do imperialismo.